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Maristela Rocha

 
30/03/2009

Chorando no Reagente


Pixinguinha, choro, São Jorge. Misture tudo e dá samba; ou será uma boa roda de choro? Antes de entrar nessa história, lembre-se, caro leitor, desse samba-enredo da Portela:

Lá vem Portela com Pixinguinha em seu altar
E o altar da escola é samba que a gente faz e na rua vem cantar
Portela, teu carinhoso reino é oração
Pra falar de quem ficou como devoção em nosso coração

Pizindim, Pizindim, Pizindim, era assim que a vovó Pixinguinha chamava
Menino bom na sua língua natal, menino bom que se tornou imortal
E a roseira dá rosa em botão, Pixinguinha dá rosa canção
E a canção bonita é como a flor que tem perfume e cor
E ele que era um poema de ternura e paz
Fez um buquê que não se esquece mais em rosas musicais

Em 1974, a Portela alcançava o vice-campeonato com esse memorável samba em homenagem a Pixinguinha, Alfredo da Rocha Vianna Filho, que nasceu em 23 de abril de 1897 no Rio de Janeiro. Pixinguinha, autor de sucessos muito conhecidos como Carinhoso, Lamento, Rosa, 1x0, Os Oito Batutas, dentre muitos outros, era um grande chorão, exímio flautista. O choro adentrou o século XX perpetuando nomes como João Pernambuco, Jacob do Bandolim, Garoto, Altamiro Carrilho, Dino 7 Cordas, além do próprio Pixinguinha, e a data comemorativa, 23 de abril, é uma homenagem ao grande Pizinguim (como a avó chamava Pixinguinha ou Bexiguinha e Pexinguinha pelas marcas da varíola em sua face).

O choro, inicialmente apenas a denominação de um conjunto instrumental foi, aos poucos, ganhando um jeito “abrasileirado” de interpretação, performance adquirida da fusão da música dos afrodescendentes com a música européia, como a polca (dança camponesa originária da Polônia que chegara ao Rio de Janeiro após ser glamourizada em Paris, dominando todo o Segundo Reinado).

No choro, os músicos usavam, inicialmente, a flauta como solista, o cavaquinho como “centro” e o violão na “baixaria”; depois outros instrumentos vão sendo inseridos, como o oficlide, o quarto instrumento mais usado no choro carioca antes do advento do saxofone, já por influência das big bands of jazz, no início do século XX. É justamente a flauta, propiciando um caráter choroso, sentimental à melodia, que confere à canção executada o nome de “choro” e aos músicos a denominação de “chorões”. Com o trabalho dos pioneiros, os flautistas Callado, Luizinho, Viriato Figueira da Silva e o cantor Virgílio Pinto da Silveira, o choro vai contagiando Ernesto Nazareth, Chiquinha Gonzaga, Anacleto de Medeiros, Pedro de Alcântara, Irineu de Almeida e muitos outros; e a grande referência daquele tempo era mesmo O Choro do Callado, ainda no século XIX. Os grupos de choro, em geral, também animavam festas e bailes populares, principalmente antes do advento do disco no Brasil.

A fase áurea dos conjuntos de música de choro vindos do século XIX se estendeu até ao período em que a atração do Teatro de Revistas, do disco e do rádio vieram, sobretudo no século XX, oferecer novas opções de entretenimento, numa linguagem mais atraente, mais popular para o público. O choro, enquanto composição musical e forma de tocar, “alma musical do povo brasileiro” (como dizia Villa-Lobos), não se perdeu com o passar do tempo, merecendo muitas gravações e composições posteriores, e até o envolvimento de artistas em torno dos grupos intitulados “Clube do Choro”, fazendo com que o gênero chegasse ao século XXI como instigante, contemporâneo, atraindo a atenção de músicos e público jovens.

A história de Pixinguinha e do choro se fundem, se complementam em 23 de abril, com as bênçãos de São Jorge. Devotos de várias partes do mundo comemoram nessa mesma data o dia de São Jorge, santo padroeiro da Inglaterra, de Portugal, da Catalunha, dos soldados, dos escoteiros, do Corinthians, eternizado em músicas de Caetano Veloso, dos “Jorges” Aragão, Ben Jor, Mautner e Vercilo, dentre outros; santo de devoção, também, de Pixinguinha, que faleceu em 17 de fevereiro de 1973, dia próximo ao carnaval daquele ano, legando-nos cerca de duas mil composições e deixando uma legião de fãs como o maestro Radamés Gnattali, Tom Jobim, Chico Buarque, Vinícius de Moraes, dentre outros grandes nomes da música brasileira.

Salve o choro intrépido, Jorge vencedor, Pixinga guerreiro... ops! Misture tudo de novo e vai entender: Viva o choro, salve São Jorge, cavaleiro corajoso, intrépido e vencedor! Sua benção, Pixinguinha compositor, instrumentista, arranjador, regente e genial! Até outra oportunidade!  Para vocês, leitores da coluna, um forte abraço e fiquem de olho porque dia 23 tem festa no céu (na lua em especial!).

 

 

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16 Comentários

Marcos Lodi

23/04/2009 - 12:39
Realmente minha querida, este samba da Portela foi um dos últimos grandes hinos da escola, eternizados no carnaval carioca. A contribuição de Pixinguinha para a música brasileira foi ímpar e vale salientar que até hoje, nosso país ainda não valoriza da maneira devida estes grandes mestres de nossa cultura em especial o choro, como Waldir Azevedo e Jacob do Bandolim por exemplo. Eles proliferaram seu talento de forma fantástica e merecem o nosso reconhecimento. Parabéns como sempre!

JOÃO LORÊDO

23/04/2009 - 11:39
VOCÊ, COMO SEMPRE ÓTIMA E NA VANGUARDA. UM GRANDE ABRAÇO DO LORÊDO

Michel Carlos da S. Netto

22/04/2009 - 10:42
Figura espetacular mesmo essa Maristela Rocha. Parabéns e que São Jorge sempre irradie força para sua beleza e seu talento. Somos privilegiados por informações precisas em um texto sempre primorozo e jovial.

MariFarinazzo

14/04/2009 - 10:59
Acredito que sempre cabe um choro em cada momento de nossas vidas... Parabéns, Maristela!!! Maravilhoso seu dom de nos remeter ao passado - sempre presente em nossas vivências atuais - com tanta sensibilidade! "Velhos amigos quero rever Vendo à noite se transformar Numa rede que vai entre nuvens me adormecer" (Vou vivendo - Pixinguinha e Benedito Lacerda)

aloisio

09/04/2009 - 22:01
Que lindo! Coisa da Maristela, minha professora querida, sobrinha da doce Leuza. Sobre Pixinguinha, segue trecho do samba Som de Prata - autoria de Moacyr Luz e Paulo Cesar Pinheiro: ... "Só quem morre dentro de uma igreja/ vira orixá, louvado seja, sinhô/ Meu santo Pixinguinha". Ah, tem ainda o do Luiz Carlos da Vila: ... O meu pai colocou prá tocar um choro/ Relembrando os tempos de Pixinguinha/ De repente eu estava fazendo um coro/ Este estilo pungente penetra na gente/ E a alma se esvai toda a devanear...

Luizinho Lopes

08/04/2009 - 19:37
Maristela, admiro o seu modo de escrever. Ligeiro e profundo: difícil conjunção. Tira de letra! E viva o choro! Parabéns.

faeO

07/04/2009 - 14:20
Resumindo....Pixinguinha fez literalmente com que o choro encontrasse uma forma musical definitiva. "Aplausos né galera" Bélissimo texto Maristela!

Lecinho

06/04/2009 - 11:19
Muito bom! Nos remete a um passado glorioso, onde a criatividade, romantismo e a genialidade eram os princípios da musicalidade brasileira. Vale lembrar que o chorinho fez sua história nos arcos da Lapa e hoje ainda se faz presente em algumas ruas e bares. Muito bom Maristela, nos trazendo histórias, nos mostrando um pouco do nosso amado e brasileirissimo Pixinguinha.

Cacinho

03/04/2009 - 17:41
Maris.. que delícia de texto.. sóaqui vc me deu vários nomes pra que eu possa ir fazendo as caricas da MPB "antiga". Quando vc me avisou que este texto estaria aqui eu visitei o site na mesma hora.. só que ainda não estava atualizado. Aí viajei e fiquei uns dias sem internet, lá na casa de minha mãe.. Parabéns... bem que aqui poderia ter um jeito de se colocar alguma dessas músicas citadas por vc... aí seria uma fusão bacana ler um bom texto ouvindo uma excelente música.... beijos Cacinho

Maristela Rocha

03/04/2009 - 10:59
Muito boa lembrança, Dênis! Altamiro Carrilho é conhecido pelo poder de improvisação e fez parte, inclusive, do Regional do Canhoto. É incrível, támbém, como o eterno "tio Emi" nos remete a tantas lembranças importantes! Obrigada e beijão da Maris!

Dênis MoreiraCoelho da Silva

02/04/2009 - 21:45
Parabéns pelo seu texto! Dentre os grandes intérpretes do choro e que ainda habita entre nós está o grande Altamiro Carrilho, flautista de primeira grandeza. Inclusive o "Seu Emi" tinha um disco de choro interpretado por este magnífico artista, que era uma preciosidade! Bjs, Dênis

Maria Leuza Moreira

02/04/2009 - 16:07
Oi Maris! Mais uma vez vc brilhou!A narração sobre "choro" está muito boa. E como gostamos , não e´´? Vamos curtir os artistas aqui de JF neste dia enos presentear com a beleza das músicas do Pixinguinha e outros mais..... Bjs da tia Leuza

Dudu

01/04/2009 - 16:03
Manero, Maristela. Tenho 23 anos e gosto demais de Choro. Lá em Niteroi tem um muito legal. Toquinho de vez em quando aparece por lá. Todo mundo deveria conhecer o Choro pra ver como é legal. Sei que na Rocinha tbem tem um projeto legal.

ana julia

01/04/2009 - 11:56
Na Umbanda popular, dia 23 de abril é dia de Ogum, no sincretismo religioso São Jorge ... Ogum é o Orixá senhor das estradas, defensor dos indefesos, o desbravador que busca a evolução... Ogun ieé!!

fernando luiz baldioti

31/03/2009 - 09:58
Valeu a matéria da Maristela Rocha. Realmente ela é demais, sempre procurando detalhes da nossa cultura. Nota dez

Marlene Mattos

30/03/2009 - 18:48
Rá, ra, ra... muito, muito boa essa receita de Choro, Maristela. Não sabia dessa ligação entre Choro Pixinguinha e São Jorge. Taí: divino! Parabéns! Viva Maristela, Pixinguinha, São Jorge e o Choro.
 

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