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Pixinguinha, choro, São Jorge. Misture tudo e dá samba; ou será uma boa roda de choro? Antes de entrar nessa história, lembre-se, caro leitor, desse samba-enredo da Portela:
Lá vem Portela com Pixinguinha em seu altar
E o altar da escola é samba que a gente faz e na rua vem cantar
Portela, teu carinhoso reino é oração
Pra falar de quem ficou como devoção em nosso coração
Pizindim, Pizindim, Pizindim, era assim que a vovó Pixinguinha chamava
Menino bom na sua língua natal, menino bom que se tornou imortal
E a roseira dá rosa em botão, Pixinguinha dá rosa canção
E a canção bonita é como a flor que tem perfume e cor
E ele que era um poema de ternura e paz
Fez um buquê que não se esquece mais em rosas musicais
Em 1974, a Portela alcançava o vice-campeonato com esse memorável samba em homenagem a Pixinguinha, Alfredo da Rocha Vianna Filho, que nasceu em 23 de abril de 1897 no Rio de Janeiro. Pixinguinha, autor de sucessos muito conhecidos como Carinhoso, Lamento, Rosa, 1x0, Os Oito Batutas, dentre muitos outros, era um grande chorão, exímio flautista. O choro adentrou o século XX perpetuando nomes como João Pernambuco, Jacob do Bandolim, Garoto, Altamiro Carrilho, Dino 7 Cordas, além do próprio Pixinguinha, e a data comemorativa, 23 de abril, é uma homenagem ao grande Pizinguim (como a avó chamava Pixinguinha ou Bexiguinha e Pexinguinha pelas marcas da varíola em sua face).
O choro, inicialmente apenas a denominação de um conjunto instrumental foi, aos poucos, ganhando um jeito “abrasileirado” de interpretação, performance adquirida da fusão da música dos afrodescendentes com a música européia, como a polca (dança camponesa originária da Polônia que chegara ao Rio de Janeiro após ser glamourizada em Paris, dominando todo o Segundo Reinado).
No choro, os músicos usavam, inicialmente, a flauta como solista, o cavaquinho como “centro” e o violão na “baixaria”; depois outros instrumentos vão sendo inseridos, como o oficlide, o quarto instrumento mais usado no choro carioca antes do advento do saxofone, já por influência das big bands of jazz, no início do século XX. É justamente a flauta, propiciando um caráter choroso, sentimental à melodia, que confere à canção executada o nome de “choro” e aos músicos a denominação de “chorões”. Com o trabalho dos pioneiros, os flautistas Callado, Luizinho, Viriato Figueira da Silva e o cantor Virgílio Pinto da Silveira, o choro vai contagiando Ernesto Nazareth, Chiquinha Gonzaga, Anacleto de Medeiros, Pedro de Alcântara, Irineu de Almeida e muitos outros; e a grande referência daquele tempo era mesmo O Choro do Callado, ainda no século XIX. Os grupos de choro, em geral, também animavam festas e bailes populares, principalmente antes do advento do disco no Brasil.
A fase áurea dos conjuntos de música de choro vindos do século XIX se estendeu até ao período em que a atração do Teatro de Revistas, do disco e do rádio vieram, sobretudo no século XX, oferecer novas opções de entretenimento, numa linguagem mais atraente, mais popular para o público. O choro, enquanto composição musical e forma de tocar, “alma musical do povo brasileiro” (como dizia Villa-Lobos), não se perdeu com o passar do tempo, merecendo muitas gravações e composições posteriores, e até o envolvimento de artistas em torno dos grupos intitulados “Clube do Choro”, fazendo com que o gênero chegasse ao século XXI como instigante, contemporâneo, atraindo a atenção de músicos e público jovens.
A história de Pixinguinha e do choro se fundem, se complementam em 23 de abril, com as bênçãos de São Jorge. Devotos de várias partes do mundo comemoram nessa mesma data o dia de São Jorge, santo padroeiro da Inglaterra, de Portugal, da Catalunha, dos soldados, dos escoteiros, do Corinthians, eternizado em músicas de Caetano Veloso, dos “Jorges” Aragão, Ben Jor, Mautner e Vercilo, dentre outros; santo de devoção, também, de Pixinguinha, que faleceu em 17 de fevereiro de 1973, dia próximo ao carnaval daquele ano, legando-nos cerca de duas mil composições e deixando uma legião de fãs como o maestro Radamés Gnattali, Tom Jobim, Chico Buarque, Vinícius de Moraes, dentre outros grandes nomes da música brasileira.
Salve o choro intrépido, Jorge vencedor, Pixinga guerreiro... ops! Misture tudo de novo e vai entender: Viva o choro, salve São Jorge, cavaleiro corajoso, intrépido e vencedor! Sua benção, Pixinguinha compositor, instrumentista, arranjador, regente e genial! Até outra oportunidade! Para vocês, leitores da coluna, um forte abraço e fiquem de olho porque dia 23 tem festa no céu (na lua em especial!).
E-mail: maristelarocha@yahoo.com
O folclore é assunto que merece sempre agendamento na mídia, levando-se em consideração que não é apenas uma relíquia.
Ah, eu quero! Quero, sim, morrer numa batucada de bamba e lembrando Ataulfo Alves em parceria com Paulo Gesta.
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