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Israel Ipenza Echeverría

 
21/10/2008

Retrato de Mi Bolivia


RETRATO DE MINHA BOLÍVIA

(Rezai por nossos mortos)

       Israel Ipenza Echeverría (12 anos)

Silenciei minha voz, me escondi, para submergir-me no calor do mundo das palavras, era meu desejo encontrar uma que me explicasse os enfrentamentos, ameaças, violência e mortes de meu povo.

Do meu dicionário saltou uma forte e poderosa: "destruição" que se entende como: "verificação: Um elemento destrói ou prejudica o segundo, por baixo de si, assim temos que madeira destrói terra, terra destrói água, água..." também encontrei outro significado como: "um conjunto de ações que permite a eliminação ou transformação de objetos, produtos ou substâncias com vistas a eliminar riscos". Permaneci absorto e aterrorizado, tudo indica que minha Bolívia maravilhosa a cada momento é empurrada para os braços da destruição.

Imagino a destruição como um mundo povoado de violência, no qual a primeira regra é o enfrentamento, despojado de sentimentos de irmandade e solidariedade, onde se reforçam o ódio e a vingança. Num mundo assim não valem a razão e os sentimentos, porque a destruição te empurra a agrupar-te nos grupos de enfrentamento, e se não o fazes, te convertes em um ser silenciado, encarcerado numa prisão, onde, em cada momento, arrebatam-te as palavras, as ilusões, o presente e o amanhã. Não tens mais amigos porque recusas os grupos que se atacam.

Não sei como e quando nos vimos envoltos neste pesadelo em que a justiça é aplicada pelas hordas multitudinárias que professam seus ideais como únicos, válidos e extraordinários para conduzir meu país que agoniza em cada morte, no grito das mães que choram seus filhos, ou na dor dos filhos que choram seus pais. Quanto desprezo se mostra pela vida!

Claro, os bandos se fortalecem porque têm seus espectadores internos e externos que os apóiam, aplaudem e os alentam... no entanto, os que ainda não optamos por um grupo, nos obrigamos a emudecer, a caminhar com medo e a sentir vergonha por nosso silêncio.

Estou obrigado a habitar meu silêncio, porque nos grupos, que se encontram em conflitos, estão amigos que respeito, uma grande parte com ideais e valores grandiosos que poderiam servir de base para buscar o desenvolvimento que meu país requer... neste momento em La Paz - Bolívia - são 7h30 da manhã, os canais televisivos em duas telas mostram como os grupos avançam pela cidade de Santa Cruz, mostrando paus, armas, chicotes e fuzis, há sede de vingança, para matar "índios" (povoação de Santa Cruz), a outra mostra mulheres que rezam pela paz de meu país.

Enquanto eu sou invadido pela tristeza... meu coração se agita e minha voz murmura: Deus ajuda-nos!... Deus ajuda-nos!...

 

Tradução: Leila Barbosa

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2 Comentários

Jorge Luiz da Silva Alves

22/10/2008 - 23:50
Na Bolívia, na África, no Extremo Oriente, a mesma estória, sofrida, dolorosa: o apelo quase inaudível dos que desejam apenas dignidade. Em forma de trabalho, justiça, paz e igualdade de direitos. O respeito é a moeda franca do mundo, mas só é acessível aos bolsos de quem necessita se a sangria dos omissos e oportunistas fôr bem aplicada no sistema nervoso central da Humanidade em todas as épocas: a exploração do homem pelo homem. Nessa valsa cruel e bisonha, os que não possuem meios para adquiri-la apenas gritam seu silêncio em forma de escandaloso desepero. Solidarizo-me com Israel e todo o povo boliviano e aplaudo de pé minha amiga Maria Helena pela iniciativa da divulgação deste verdadeiro manifesto.

Gleissi

21/10/2008 - 17:07
Enquanto nosso país vive um momento horrível com a morte de uma adolescente por puro egoísmo do seu ex-namorado, nos deparamos com essa matéria maravilhosa de uma criança de 12 anos, que ama seu país, ajuda os semelhantes,mesmo nos momentos de tristeza não perde sua fé em Deus e apesar de todo o sofrimento ainda consegue acreditar em seus sonhos. Me emocionei muito com a carta!Ela me fez dar uma parada para pensar em minha vida!
 
Perfil Israel Ipenza Echeverría Israel Ipenza Echeverría é escritor e poeta. Mora na Bolívia, em La Paz e, aos 12 anos de idade, já está no primeiro ano do ensino médio. No quadro de honra do seu colégio, está em primeiro lugar como estudante.
 
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