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Maristela Rocha

 
06/08/2009

Vamos atrás da serra, oh Calunga!


Tributo a Villa-Lobos I


O reflexo das ações de Villa-Lobos no campo social e musical, o resgate de sua obra tem um marco especial no dia 17 de novembro de 2009, cinqüenta anos da morte do compositor. Entretanto, agosto, considerado mês do folclore, inspira menção especial ao renomado compositor carioca, autor de cerca de 1.000 obras. Considerado, ainda em vida, o maior compositor das Américas, Heitor Villa-Lobos (1887/1959) foi o único compositor do Brasil a conseguir reconhecimento internacional na primeira metade do século XX, e destacou-se ao lado de grandes nomes como Igor Stravinski, Bela Bartók, Manuel de Falla e Serguei Prokófiev.

O folclore é assunto que merece sempre agendamento na mídia, levando-se em consideração que não é apenas uma relíquia. O carnaval, as oferendas para Iemanjá, o ritual da semana santa e outras festas cíclicas e religiosas não ficaram apenas na história e são incorporadas às práticas cotidianas contemporâneas.

Apesar do estudo do folclore ser relativamente recente, 163 anos, podemos considerá-lo como a manifestação cultural mais antiga da humanidade, já que as lendas, os mitos, o artesanato, os rituais eram transmitidos através das gerações, desde os tempos pré-históricos.

As manifestações folclóricas e populares tornaram-se sedutoras também para Heitor Villa-Lobos. A partir de estudos, pesquisas, viagens (algumas consideradas fantasiosas, pois não há comprovações a respeito), Villa-Lobos vai incorporando a música espontânea às suas obras de características eruditas. Isso é evidenciado em suas composições como as Cirandas e as Cirandinhas, que remetem às cantigas de roda (Zangou-se o cravo com a rosa, Todo mundo passa...), os Choros, dentre muitas outras. O Choro nº1, para violão solo, composto em 1920 em homenagem a Ernesto Nazareth, é uma exemplificação da técnica violonística incorporada à música popular urbana do início do século XX.

Vamos atraz da serra, oh! Calunga!, A maré encheu, Fui no Itororó, Pai Francisco, Ó Ciranda, cirandinha, A Pombinha voou e outras peças do cancioneiro infantil brasileiro ficaram eternizadas através do registro na obra Guia Prático. Novamente, ele imprimia à música erudita ambientações e características da música folclórica. Villa-Lobos, responsável pela implantação do canto orfeônico no sistema educacional brasileiro, levava crianças e adultos, professores, a assimilarem a música como poderoso instrumento pedagógico, terapêutico e socializador. Preparando e apresentando grandes corais, que se tornariam as concentrações orfeônicas, constituídos por alunos das escolas primárias, secundárias e do Instituto de Educação, além do Orfeão dos Professores, chegou a reunir até 44.000 vozes.

Provou, dessa forma, a acessibilidade da música mais refinada tecnicamente para um vasto público nem sempre acostumado a freqüentar salas de concerto.


Nas palavras de Heitor Villa-Lobos, "a música folclórica é a expansão, o desenvolvimento livre do próprio povo expresso pelo som" . Assim como o Guia Prático, outras obras como as Bachianas Brasileiras revelam Villa-Lobos como grande folclorista. A grande admiração pelo alemão Johann Sebastian Bach (1685/1750), influências estéticas do período (1930/1945) e esse trânsito pela música espontânea resultaram nas Bachianas Brasileiras, um de seus mais importantes legados. A série Bachianas, em número de 9, apresenta semelhança de modulações e contracantos de peças de Villa-Lobos com elementos técnicos da obra de Bach e exemplificam a linguagem estética como discurso social. Agosto, também conhecido como mês do desgosto, é um tempo propício para a reflexão acerca de Heitor Villa-Lobos e as ricas manifestações culturais populares e folclóricas brasileiras.

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14 Comentários

João Damasio

20/02/2010 - 18:08
Realmente um texto riquíssimo, que nos informa bastante e ainda assim nos instiga à pesquisa. Sobre Villa-Lobos, sobre o Folclore, sobre os cantos e tudo mais... Sou AINDA leigo quanto à contextualização histórica do folclore e da obra de Villa-Lobos. Pra buscarmos o conhecimento de algo, tem que haver um fato motivador/incentivador. Algo que nos inspire prazer em saber sobre.. Neste texto encontrei este incentivo aos iniciantes no estudo cultural, mesmo assim me pareceu texto de nível bastante elevado e contextualizado.

Marion Meynier

26/08/2009 - 11:26
Muito bom o artigo. Interessante é que enquanto os compositores brasileiros contemporâneos de Villa-Lobos iam para Europa para estudar, ele se nutriu do nosso folclore. Quando finalmente foi para Paris diz: "Não vim para estudar, mas sim para mostrar minha obra." Valeu Maristela!

Flam�­nio Araripe

14/08/2009 - 20:44
Voce liga a sensibilidade musical do Villa-Lobos ao folclore, o grande berco cultural. Uma vitalidade que precede a industria fonografica e sobrevive aos modismos da sociedade globalizada. Um DNA que na regiao do Nordeste onde nasci, Cariri cearense, fincou suas marcas profundas. Sarava¡ J. Figueiredo Filho e Ca mara Cascudo.

rodrigo

12/08/2009 - 15:23
Muito bom o texto Maris. Límpido, coeso, claro e, mais que tudo, super informativo e rico. Nossas escolas, até mesmo muitos universitários, nunca ouviram do mestre das bachianas. Uma afronta à brasilidade e ao que há de mais belo do nosso país: a música. Parabéns. Abraço grande, Rodrigo

Pedro

11/08/2009 - 23:14
Maneiro! Isso deveria ser ensinado nas escolas concordam? Como pode as pessoas não terem o conhecimento, a convicção sobre a importância do maestro e compositor Villa-Lobos? Que país é esse?

Eduardo

11/08/2009 - 15:20
Como diria o Giovani Improta da novela: "Felomenal"! Pena que a mídia diária não cuide de reflexões importantes e saborosas como as da Maristela Rocha aqui no Reagente e em outros espaços. Congratulations, sweet journalist!

Joviano Silva Lopes

07/08/2009 - 19:47
"Considerado em vida, o maior compositor das Américas"... realmente não é pra qualquer um! :) Como sempre Maris, ótimos artigos!!! Sou fã, beijo.

fernando raine

07/08/2009 - 19:14
interessantíssima a observação, aliás, dando um palpite aqui: que halloween o que,o povo devia celebrar o saci pererê. kkk beijos Maris. depois faço um comntário mais elaborado

Carlos André Weidt Mendes

06/08/2009 - 22:09
Parabéns pelo artigo, gostei muito! Bjs!

Celso Noronha

06/08/2009 - 21:23
A professora Maristela foi perfeita em seu Tributo. Me fez viajar nas composições citadas e ratificar a importância do folclore para a cultura de um povo.

Compadre Lemos

06/08/2009 - 20:56
Maristela, Isso é Cultura!... . . A Professora pergunta O que venha a ser ?Cultura? De uma forma simples, pura, Do jeito que o povo assunta, Eu digo: é o que ajunta Tudo o que meu povo é! É Poesia, Canto e fé, É dança, Aboio e Cordel, Os versos de um Menestrel Nascido no Assaré! . É a sanfona de Gonzaga É seu Jakson do Pandeiro É Boldrin, bom brasileiro, Lima Duarte, sua saga... É o saber que não se apaga Da memória inteligente. É ler e ler novamente Um bom romance de Rosa, É Música, Verso e Prosa, A alma da minha gente! . É ciranda cirandinha Nas infantis brincadeiras. São as cantigas praieiras Cantadas detardezinha... É o cheiro da cozinha, Sua típica delícia, O jeitinho e a malícia Desse Povo hospitaleiro! Aqui, se falta dinheiro, Sobra talento e perícia! . É também o que é moderno E está sendo feito agora: É o Rádio, toda hora, Esse nosso amigo eterno. É a gravata e o terno É também a Alta Costura Tudo isso se mistura No Jornal, Televisão! E o povo, de coração, Tudo vê e tudo apura! . É o verso, que nasce bruto, Deste poeta iletrado, Mas que traz, bem retratado, O sentimento absoluto, De amor, embora inculto, Mostrando, de forma pura, O que é bom sempre dura! Usando sinceridade, Eu lhe digo, na verdade, Maristela, isso é Cultura!!! . . Com enorme cariho e profundo respeito, Compadre Lemos. Juiz de Fora - 06/08/2.009

Carlos Viol

06/08/2009 - 19:44
Muito bom o artigo por ajudar a fazer memória do grande maestro Villa-Lobos e por apontar para a riqueza que é o nosso folclore em tempos de mimetismo cultural onde copiar e imitar padrões impostos pela grande mídia se tornou a grande sensação.

Cacinho

06/08/2009 - 16:21
Como sempre a Maris nos brinda com informações sobre nossa cultura, sobre nossa gente. Parabéns Sempre muito bom ler seus artigos.

Silvio Reis

06/08/2009 - 14:51
Achei muito interessante a forma como a autora faz a ligação entre o folclore e a obra de Heitor Villa-Lobos.
 

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