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Maria Helena Sleutjes

 
19/08/2010

E agora?


Tic-tac. O relógio não para. O tempo passa, mas a vida é finita.

Se o tempo passa e o fim é inevitável, nada tem sentido? Não, diriam os jovens, porque temos o AGORA.

O que seria este AGORA?

No entender de Sérgio Sardi, professor de filosofia da PUCRS, pode-se dizer que o AGORA é aquilo que sempre-nunca foi, é, e será. O agora está em constante renovação.

Todos estão sempre no AGORA embora alguns nunca tenham se dado conta disso.

A rota dos humanos se tornou veloz. Das caravelas ao avião decorreram 400 anos, mas das rotas aéreas às viagens espaciais decorreram apenas poucas décadas. E os humanos continuam correndo e criando meios para andar no tempo em menos tempo.

Hoje os homens viajam navegando num mundo diferente, o mundo digital, cada vez mais veloz e atraente. Hoje, o "já" tornou-se palavra de ordem e a sensação é de que é preciso fazer cada vez mais no mesmo espaço de tempo, e até em menos tempo, e o pior, muitas vezes não se encontra mais tempo para coisa alguma.

Seria o caos? É o caos. O caos da mudança de um grande paradigma, uma mudança sem precedentes. O ser humano descobriu outra galáxia para habitar e viaja para ela no tempo digital, estando a cada momento em todos os lugares sem estar em parte alguma.

E por esta nova via (comunicação\informação) é conduzido à velocidade da luz, para o AGORA, sem precisar dar um passo sequer. Assim, as interfaces começam a povoar seu mundo estabelecendo a tão desejada interação entre conhecimento e humanismo e consolidando as tecnologias como ferramentas do relacionamento. Quem diria?

Entretanto, sem saber lidar direito com este mundo tão próximo e ao mesmo tempo tão distante, observa-se, como o sociólogo Zygmunt Bauman o fez, que, "os jovens emanam ansiedade, desassossego e impaciência... Têm medo de deixar passar ou perder as melhores oportunidades. Ídolos e modas a seguir e usar, existem em tanta profusão quanta brevidade. As regras de um jogo mudam antes mesmo que o jogador tenha tempo de chegar ao último nível". Há então, a geração de uma grande e ofuscante angústia, pois o passado e o futuro foram completamente relegados a um segundo plano e o homem ainda não sabe viver completamente no presente, especialmente os mais velhos.

 

No entanto, não é possível reter a fluidez deste caminho. Heráclito, no século V a.C, disse que tudo flui e assim, pode-se entender que o homem está tomando consciência de que está situado no AGORA, sempre e somente no AGORA.

E agora?

Agora... Com tudo mudando a sua volta, o ser humano que era um consumidor passivo de conhecimento e informação se transforma velozmente em criador de conteúdos e interventor no tratamento desses conteúdos.

Isto significa que à este AGORA, os mais sensíveis são os nossos jovens, e estes puxarão estas informações de forma seletiva, transformando-as em conhecimento objetivo.

Agora, nossa sociedade começa a ser marcada pela desistência de muitas ambições e acaba aceitando que não é necessária uma ordem pré-estabelecida, nenhuma opinião prévia e nenhum valor que seja fixo.

E agora?

Agora... De frágil e errante pecador na idade média, o homem, que pensava ter sido resgatado pela modernidade pela força da ciência, começa a colocar em xeque o mundo do progresso e da razão. Poderíamos dizer que a razão começa a perder a razão.

Agora, o aprender se torna cada vez mais interativo, não sequencial, personalizado, baseado na experiência e no espírito das descobertas. Os entretenimentos mais apelativos e criativos, com menor espírito analítico e maior espírito de síntese.

E agora?

Agora... As certezas se diluem, há um profundo silêncio sobre as questões existenciais e tudo nasce com prazo para expirar.

Agora, as pessoas serão alunos eternos e desenvolverão as "e-amizades" que já estão por aí e são até mais interessantes que as de outrora. E quem sabe, finalmente, se possa abrir espaço para a sabedoria e o coração?

E agora?

Agora... O homem poderá ter a percepção interior de seu próprio fluir, de seu próprio ser em contato com o tempo enquanto realidade primordial, na intuição de sua própria duração.

Agora, a liberdade sorri abertamente para as divergências, debate-se o efêmero e os jovens que nasceram neste "boom" da Internet e dominam esta tecnologia de forma tão natural quanto o ar que respiram, viverão no presente - termo que designa o tempo de AGORA.

E agora?

Agora... Os seres humanos estão sem as respostas, que na verdade nunca lhes garantiram coisa alguma. Ruma para o nada ou para uma grande reviravolta e tudo indica que nossos jovens, melhor equipados para compreenderem a efemeridade de todas as coisas, possam amar e valorizar mais esta vida finita.

 

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12 Comentários

Cláudia Freire Lima

21/08/2010 - 13:12
Amadíssima amiga, não é a toda que os consultórios estejam abarrotados de pacientes com neurose se angústia e fobias. Esse exagerado investimento no mundo é sintoma de uma contemporaneidade que não sabe muito de si, tudo é novo e novo de novo a todo o momento, não dá tempo para se formar uma imagem. O amanhã é agora e o passado não tem tempo para existir porque é apagado num delete... Tenho a impressão que a corrida não é para o finito e sim uma tentativa de encontrar um lugar ou algo que possa tampar o buraco existente em todo ser humano...Não suportamos o vazio, o sem sentido, a espera, porque qualquer pausa é cheia de vazios...repara. Um beijo carinhoso da Cláudia.

helena luna

21/08/2010 - 09:11
Esse agora me parece não existe, porque depressa é passado. O que será dos nossos meninos? Interrogação que permanece e preocupa. Você sempre atualizada com tudo e desbravando caminhos. Meu abraço. Helena

Lazara Papandréa

20/08/2010 - 21:14
Esplêndido seu texto! Nos leva a refletir sobre esse acelerado processo tecnológico em que vivemos e a nos perguntar como nos vemos e nos colocamos no meio dele...E agora? Evoluiremos para um mundo onde será mais compreensível e menos complexo "viver" simplesmente? Desistiremos de perguntar por Deus? Avaliaremos melhor a perda, a morte, a dor? É muito complexo entender quando estamos no meio de um intenso redomoinho evolutivo. Penso que ainda estamos perplexos com a velocidade das mudanças que ocorrem em todos os níveis. Parabenizo-te pela lucidez da tua escrita e deixo-te meu abraço

Bruno Defilippo Horta

20/08/2010 - 16:45
Maria Helena, seu texto nos leva a refletir sobre o que estamos fazendo do nosso agora. E logo que li pensei que temos vivido com tantos afazeres em tão pouco tempo que o agora tem se tornado cada vez mais efêmero. Os afazeres se multiplicam e o dia continua tendo 24h "apenas". Este mundo globalizado e digital proporciona a nós novas formas de se desfrutar e redimensionar o 'agora', mas o que temos feito dos momentos que compõem o agora é o que mais me inquieta. Numa de suas crônicas, Rubem Alves diz que "quem descobre que o tempo está fugindo, descobre subitamente a beleza do momento que nunca mais será". Creio que a grande questão seja perceber que cada agora é um desses momentos únicos... que nunca mais serão. Parabéns por mais este texto.

Nicácio Roberti

20/08/2010 - 14:36
Maria Helena, Como você disse, "o fim é inevitável". E cada fim remete a um novo começo. Cada minuto, cada segundo, hora, dia, semana, ano vivido toma forma em nós como lembrança na fração de tempo do agora, que é resultado de nossas escolhas e a chave para a mudança do nosso futuro. Agora e sempre continuo admirando você sua obra. Parabéns e um grande abraço.

MAGDA TRECE RIBEIRO

20/08/2010 - 14:16
Eu queria muuuuuito ter tempo AGORA para fazer o que amo. Não quero pra depois... não, eu quero AGORA; mas cadê o tempo...a grana???? Cadê o meu AGORA que está sendo deixado pra depois? Belo texto Maria Helena.

Leila Maria Fonseca Barbosa

20/08/2010 - 13:35
E agora? Agora, Maria Helena, está mais do que comprovada sua percepção magistral, seu "avant net", ou seu vanguardismo pós-moderno que é capaz de, literariamente, captar nosso tempo, nosso espaço, nosso agora. Concordo com suas constatações filosóficas e me sinto feliz por ter, agora, quem tão brilhantemente consegue organizar o que penso, sinto e vivo. Obrigada, grande amiga!

Luís Antônio Valle kirchmeyer

20/08/2010 - 11:57
E agora? EDUCAÇÃO, e agora? É neste mundo do agora que as mentes que ditam as regras do nosso querido Brasil precisam focar o futuro dos nossos jovens, nossos futuros LÍDERES. Precisamos mais do que nunca entender que o agora é a realidade, "o amanhã ao agora pertence". Como é gostoso encontrar textos que nos levem a refletir sobre a nossa existência, nossos caminhos, nossas opções; parabéns pela bela apresentação de idéias, pela boa discussão proposta. Um grande abraço.Luís Antônio.

Denise

20/08/2010 - 10:31
E agora? Agora vamos refletir. Parabéns Maria Helena. "Abraços poéticos"

eliana mora

20/08/2010 - 08:07
talvez não tenha surgido ainda [será?] ninguém que vá compreender - e viver - somente o agora - penso. Mas sempre resta confiar. Afinal, quem tem mais [teoricamente] caminhos adiante, pode se imbuir de 'olhá-los'' com mais atenção...e criatividade. O texto é interessante, Maria Helena. Vamos ver a reação [ou imaginar] Enorme abraço, Eliana [El]

Henricus Bernardus Kamps

19/08/2010 - 23:02
Olá Maria Helena, E agora José? Que o tempo corre veloz, mais do que nunca, foi explicado pelo físico alemão Schumann.( com já sabem) e essa sensação de falta de tempo é praticamente generalizada.Quando mencionei , em grandes linhas a Sahaja Yoga, falei sobre a importância do momento presente pois o passado se foi e e futuro existe tão pouco. O que importa é o agora. Quando Cristo fala:¨¨ sejam como as crianças* Ele não se refere ao infantilismo mas de viver o momento presente, pois para a criança não existe o passado nem o futuro. Na Sahaja Yoga, atraves da subida reponsável da KUNDALINI é aberto o canal central´ou o canal do presente ( o canal nervoso para-simpático)- para evitar que a gente continue se comportando feito um pêndulo ou seja, para o canal esquerdo( o passado ) - o canal nervoso simpático- e para o canal direito ( o canal do futuro , o outro canal nervoso simpático) Maria Helena, essas são apenas algumas observações que me vieram á cabeça ao ler o seu artigo . A humanidade inteira se comporta como um pendulo´´ O agora não existe. Em breve vou lhe mandar um e-mailfilme sobre o homem mais feliz do planeta ,Abraços .

Tânia Gonçalves

19/08/2010 - 21:15
Maria Helena nos presenteia com um texto que nos leva a refletir sobre esse processo de globalização das comunicações. Esse mundo virtual que envolve não só crianças e jovens mais adultos e também idosos. Estamos vivenciando um momento em que os acontecimentos ocorrem em tempo real. O longe e o perto se intercalam de uma forma nunca antes dislumbrada. O AGORA está cada vez presente em nosso cotidiano. Parabéns pelo excente texto. Abraços, Tânia
 

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