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Nos últimos 40 anos da política brasileira, não existiu passagem histórica mais comovente do que a perda do então presidente eleito Tancredo Neves. Até mesmo a data de sua morte, ocorrida em 1985, foi épica: 21 de abril, feriado em homenagem a Tiradentes, um dos mentores da Inconfidência Mineira.
Assim como o Alferes, podemos nos referir a Tancredo como "um grande ponto de interrogação". Um político marcante, de discursos clamorosos, com jeito mineiro e quieto, que conquistou o país atordoado pelo fantasma da ditadura. Entretanto, existem fatos omitidos e peças faltantes de um quebra-cabeça político que muitos insistem em não falar, ligando a imagem de Tancredo à Tiradentes como se ambos fossem revolucionários ou "salvadores da pátria". Pois bem, vamos discutir um pouco.
Com relação a Tiradentes vou ser mais sucinto. A história de Joaquim José da Silva Xavier é controversa. Participou de um movimento fracassado, liderando-o na pior fase. Como "péssimo estrategista" foi o único a ser enforcado em represália ao movimento. Machado de Assis em brilhante crônica publicada na comemoração dos cem anos da tentativa de insurreição, cita Tiradentes como "aquele que provavelmente não ficaria com as principais benesses do novo regime, mesmo se conseguissem algum êxito". O popular "Boi de Piranha" que, como consolo, virou herói.
Falando de Tancredo Neves, vamos aportar, primeiramente no Estado Novo de Getúlio Vargas. Tancredo começou sua carreira política aos 25 anos, eleito vereador e foi adquirindo prestígio popular no decorrer de sua trajetória. Todavia, sempre que ele caminhava para o seu apogeu, fruto do carisma adquirido, algo sempre "atrapalhava". Primeiro foi o Ministério da Justiça exercido por Tancredo no segundo governo de Vargas. O cargo de ministro o impossibilitou de disputar uma vaga na Câmara Federal. Não houve tempo hábil para que o político se desligasse do cargo. Com isso, foi nomeado Presidente do Banco do Crédito Real de Minas Gerais.
Em 56, início da era Juscelino Kubitschek, de quem era aliado, o então presidente JK, nomeou Tancredo para uma diretoria do Banco do Brasil, cargo que deixou em 1958 ao ser nomeado Secretário de Fazenda do Governo de Bias Fortes, fato que o "impediu" de disputar as eleições legislativas daquele ano. Impediu?
Após tanto jogo de interesse, o político mineiro começou finalmente a trilhar seu caminho rumo ao Planalto, sendo eleito Governador de Minas Gerais, adotando postura contrária à ditadura. Vale destacar que sua capacidade de articulação era notória, tanto que nunca foi visto com "olhos de lince" pelo regime.
Tancredo foi o político que visualizou nas trapalhadas do PDS de Maluf, a grande chance de chegar até a presidência. Não fez nenhum esforço demasiado para que as diretas tivessem efeito. Foi denominado figura marcante de um processo, sem se quer liderá-lo. A derrota da emenda foi melhor para alavancada de Tancredo. O Colégio eleitoral ficou de mãos atadas. Não seria necessário tanto esforço para derrotar o já instável Paulo Maluf.
Líder, salvador da pátria, progressista? Tancredo Neves, ao meu ver, foi mais estrategista do que esse mártir do povo, apresentado pela história e pela mídia. Foi quem soube articular e articularia ainda mais na presidência. Foi um expert em fazer da política um verdadeiro pudim, cozinhando tudo e todos à "banho Maria". Após sua morte, foi mais fácil colocar na cabeça do povo que a esperança de um país melhor foi sepultada junto com Tancredo .
Se tivesse assumido o cargo não seria lembrado dessa forma. Seria mais um, que passou, xingado, e às vezes ovacionado ou ridicularizado pela mídia, cheio de altos e baixos. Viviamos um tempo difícil, onde somente os mais saudosistas acreditariam que teríamos grandes mudanças. O "mito" da nova república foi sabedor do seu lugar no processo e disposto a enfrentar a empreitada.
Tancredo Neves foi o homem que, no geral, fez tudo certo. O admiro por isso. Foi o marqueteiro mais inteligente daquela época, que só não contava com os empecilhos cotidianos. Porém, até nisso a vida lhe foi benevolente, se despedindo do mundo no dia da Inconfidência. Um prato cheio para imprensa sensacionalista e os discursos mais inflamados possíveis. No final, a coincidência perfeita para lacrimejar o povo e injetar em nossas mentes a versão mais cômoda e pertinente de que "a vida seria menos triste se você existisse". E ainda tem gente que acredita.
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