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Renato Henrique Dias

 
04/03/2009

A noite em que Juiz de Fora se iluminou de prata


E, de repente, os juizforanos olharam para o céu. E viram que o céu de sua cidade estava iluminado por estrelas e uma resplandecente lua nova. Tudo aconteceu na noite de segunda-feira, dia 2 de março, quando um incêndio em uma das instalações da Cemig, no Bairro Barbosa Lage, provocou um blecaute de mais de 40 minutos, atingindo outras 17 cidades da região, além de Juiz de Fora. Essa foi a informação oficial, digamos assim, divulgada no outro dia nos jornais. Mas as mesmas linhas que destacaram os prejuízos nas indústrias e no comércio, o caos no trânsito e os problemas causados com pessoas presas em elevadores, riscos nas penitenciárias e vai por aí, não se preocuparam sequer em enaltecer a beleza e a magia daquele momento.

Então, vamos lá: de repente, os juizforanos olharam para o céu. Havia uma lua nova emergindo por detrás dos morros da cidade, salpicando de luz prateada aquilo que a energia elétrica não podia profanar, pelo menos naquele momento. Prédios, avenidas, árvores, ruas, casas, e até os olhares das pessoas se transformaram em um ponto de reflexo da luz do luar e das estrelas. Uma luz que irradiava a magia que atingia a todos, transformando em romantismo as reações mais singelas de cada pessoa beneficiada com a experiência do momento. Até então, enquanto as lâmpadas, as luminárias, os postes e os néons irradiavam sua luz artificial, ninguém reparara ainda que o céu estava perfurado por inúmeros pontinhos luminosos, estrelas faiscantes, bruxuleantes, umas tímidas, outras avantajadas, querendo competir com as demais através de seus lampejos fosforescentes, na infinitude da vida celestial.

E é neste cenário acima da cabeça de cada um que estão alguns personagens quase eternos dos mistérios estelares. E na perspectiva do conhecimento e das memórias enciclopédicas, garimpamos nomes esquecidos na correria de todos os dias, e, principalmente, na insensibilidade das "noites comuns de novela", como diria o compositor e cantor Paulinho da Viola. Nesse renascer - por mínimo que seja - deste reencontro com o fascínio dos céus, vimos - ou imaginamos ter visto - fenômenos como Sirius, Rigius Kentaurus, Arcturus e Rigel, nomes que a astronomia deu às belas e incandescentes luzes que não estão ao alcance de nossa mão, e que o Homem, na sua ânsia mística, transformou em seres palpáveis, através da astrologia, como Gêmeos, Virgem, Escorpião (a fantástica Antares), Peixe, Leão e outros signos, a regerem destinos e crenças de cada um. No mesmo céu onde o Homem buscava se orientar para seguir suas viagens marítimas, onde ele descobriu as setas indicadoras do majestoso conjunto chamado Cruzeiro do Sul, ou as comportadas Três Marias, sempre ladeando umas às outras, sempre se lampejando entre todas as demais.

E nesta noite sem luz elétrica, o olhar das pessoas não se cansou de fixar tantas maravilhas, petrificadas na imensidão da tela infinita da tridimensionalidade celestial. Havia algo de mágico no céu, naquela noite. Havia algo que o juizforano, fechado em sua clausura babilônica, cercado por suas montanhas já impregnadas de tímidas luzes profissionais, simplesmente estava deixando esvair em sua memória: uma noite de céu estrelado e enluarado. E isso em plena cidade. Neste momento de beleza natural, as conversas nos quintais, nas calçadas, nos terraços, nas varandas dos prédios, nas coberturas, nas mesas dos bares, na plenitude das avenidas tumultuadas, com certeza, foram buscar as lembranças de alguns momentos vividos em um acampamento, na roça, numa fazenda, em uma estrada perdida nos rincões do mundo afora. É claro que, nestes quarenta minutos de blecaute, o juizforano teve um momento a mais de simpatia com a natureza, de carinho com a pessoa amada, de afeto com a criança, de aproximação com o cãozinho assustado ao seu lado. Isso tudo, independente de classe social, religião, idade ou raça.

Com certeza, nestes quarenta minutos, algo tocou a consciência de cada um, como uma espécie de despertar para outros sentimentos e verdades que não aqueles estampados na tela da televisão, que forçosamente, naquele momento, estava apagada, desligada de sua realidade, escondendo as crises econômicas e a hipocrisia dos políticos, refletindo apenas a luz prateada que aquela lua nova insistia em mostrar em todo o seu esplendor. Havia algo de diferente no ar. Juiz de Fora estava prateada de beleza, refletindo muito mais do que a rotina da sanha das luzes artificiais. A cidade refletia a grande beleza dos mistérios do infinito. Que, de repente, ficaram ao alcance de cada juizforano. Só não viu - ou não sentiu - quem não quis.

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2 Comentários

Thuiâny

27/03/2009 - 09:31
Renato, meu bem! Fiquei arrepiada ao ler. Você me surpreende a cada linha. Estou com saudades!

Michael Guedes

06/03/2009 - 18:57
Pois é, Renato...aqueles 40 minutos me deram a sensação de saudade de uma coisa que nÃo vivi ou que tenho vivido pouco. Você foi perfeito na tradução. Que apaguem-se as luzes!!!
 

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