13/11/2008
O fim do Panorama
Assim como quem não quer nada, o Jornal Panorama saiu de circulação na véspera de Finados. Foram pouco menos de cinco anos de tiragem, que seriam completados no próximo dia 30. O silêncio do fim contrastou com o grande barulho do lançamento, quando - pela primeira vez em décadas - o mercado de jornalismo de Juiz de Fora, enfim, se movimentou. Eu estava lá, primeiro como editor de política, depois como articulista e, enfim, como chefe de redação, em 12 meses de trabalho.
Não quero aqui tecer comentários sobre os motivos que levaram ao fim do periódico (que já não era diário há muito tempo). Sou suspeito para esta análise - para o bem ou para o mal. Apenas acredito que é preciso deixar um registro histórico sobre o Panorama, sua gritaria inicial, suas transformações até a desligada derradeira dos aparelhos. Talvez, daqui a uns anos, tudo isso seja tema de uma pesquisa acadêmica ou mesmo histórica que revelará - quem sabe - um divisor de águas no nosso mercado. Ou terá sido somente um susto?
Sai do jornal no dia em que Alberto Bejani venceu Custódio Mattos no segundo turno da eleição municipal, no dia 31 de outubro de 2004. Não, não foi um protesto pela eleição de Bejani nem nada em relação à política. Apenas encerrei um ciclo e, tirando algumas edições logo após este período, confesso que não me identifiquei mais com o jornal. Agora, quatro anos depois da minha demissão voluntária, senti uma pontinha de nostalgia e resolvi abrir o meu arquivo.
Estava lá, no editorial "Alvíssaras! Temos um novo jornal", redigido pelo vice-presidente de Comunicação, Fritz Utzéri (por onde anda?), na edição número zero: "Sem as nuvens suspeitas das dependências de ordem política e financeira, mas totalmente comprometidos com o horizonte das grandes causas de Juiz de Fora e da Região, vamos começar a navegar". O jornal pretendia ser regional e adotava até o slogan "O Diário de Juiz de Fora para Minas Gerais", de autoria do jornalista Wilson Cid.
A edição número um mostrou bem o exagero daquele momento. Foi um jornal de quase 100 páginas, cerca de 18 mil exemplares vendidos (recorde) e manchete revelando, como um furo, uma suposta aliança entre Itamar Franco, exibindo uma inusitada barba, e Tarcísio Delgado: "Itamar e Tarcísio confirmam aliança na sucessão municipal". O "furo" até hoje não se concretizou. Pelo contrário, os dois mantêm uma guerra silenciosa, só manifestada em declarações cheias de indiretas através da imprensa.
O editorial de capa também ajudava a explicar a euforia: "Panorama representa um sopro de vida no momento em que vários órgãos de imprensa vivem dificuldades em todo o país. Queremos fazer um jornal moderno, dinâmico e independente. Vamos quebrar os paradigmas de um jornalismo regional atrelado ao poder público, burocrático e artificial". Muita pretensão?
O dia seguinte - uma segunda-feira chuvosa - já começou a responder. Os 18 mil exemplares da véspera caíram para seis mil, e depois para dois mil jornais vendidos. Começava aí uma luta desenfreada por um equilíbrio não-planejado. Simplificando tudo, foi esta corrida que motivou primeiro uma redução do preço e depois outras três mudanças de formato, culminando com um tamanho anão e distribuição gratuita. Isso sem falar das muitas estratégias comerciais mirabolantes para atrair o leitor e o anunciante. O efeito, como o desfecho confirmou, foi zero. Mas é claro que houve conseqüências.
E é sobre elas que devemos nos concentrar e aprender. Mas isso é um assunto para a próxima coluna...
7 Comentários
Gustavo Neto
03/12/2008 - 16:09
Gostaria apenas de concordar com os diversos comentários já dispostos sobre a trajetória do Panorama, principalmente com os de Richard, pois quando nós da 1ª turma de jornalismo da Universo, debatiamos sobre a chegada desse novo meio na cidade, já ouvíamos de nosso ilustre Michael as indicações de que faltava alicerce para essa construção, faltavam estudos para essa investida, afinal nossa cidade tem certas peculiaridades não comum à todos. Não é qualquer aventureiro que chega e instala sua bandeira.
Gostaria de parabenizar o projeto Reagente! São projetos assim, que falam e entendem nossa língua são capazes de revolucionar o mercado jornalístico da cidade!
Ademir Veroneze
27/11/2008 - 17:18
O mercado de comunicação de Juiz de Fora tem muito a evoluir. O extinto Panorama é um bom ponto de partida para reflexão. Inclusive, Michael, tive a oportunidade de publicar uma reportagem no Comunique-se sobre a trajetória do veículo. E, como você cogitou que o jornal poderia se tornar objeto de estudos, aproveito para informar que isso já tem acontecido (confira em: http://www2.metodista.br/unesco/rede_alcar/Rede_Alcar_70/rede_alcar_jornal_panorama.htm ). É isso aí, vamos continuar discutindo a fim de aprender com os acertos e erros uns dos outros.
Mônica Sousa
22/11/2008 - 16:51
Achei ótima a idéia de abordar a tsunami "Jornal Panorama". Eu trabalhava em JF na época do jornal e me lembro perfeitamente da euforia e, em seguida, da decepção de jornalistas que apostaram muito no jornal. Alguns deles, deixando trabalhos "sólidos". Acho até normal o recorde de vendas na primeira edição já que houve um grande investimento em publicidade (principalmente por meio do MGTV). No entanto, acredito que o definhamento do jornal tenha ocorrido por problemas administrativos. A carência de seriedade se refletiu nos preços, na falta de profissionais e de investimentos. Mas eu não fiz parte do time Jornal Panorama para saber com certeza o que se passou. Então, aguardo os próximos comentários do Michael.
Geraldo Muanis
20/11/2008 - 18:23
Prezado Michael Guedes,
Li e reli, com atenção redobrada, suas observações sobre o fechamento do Panorama. Tenho uma memória de elefante, além do costume de guardar e colecionar peças importantes que com certeza serão capazes de retratar com fidelidade o mosaico dos "Anos Panorama", a começar pela nossa visita à Fazenda Guaritá, do Omar Peres.
Naquele jantar, inclusive, me lembro de todos os jornalistas dando suas respectivas opiniões acerca da tiragem do jornal, com o clima de otimismo reinando no imenso salão de jantar.
Também me lembro, por exemplo, já com o jornal nas bancas, de uma noite de domingo em que não só presenciei, como externei minha opinião acerca do preço do jornal. Éramos três no elevador: eu, você e o Omar Peres. Minha opinião, de que o jornal deveria ter começado a ser vendido pela metade do preço foi voto vencido.
Estarei atento às discussões.
Geraldo Muanis - Jornalista
Luciana Peralta
18/11/2008 - 09:59
Eu estava no primeiro ano do curso de Jornalismo e nós, estudantes, acreditávamos realmente que o Panorama seria revolucionário, que seria um jornal "independente", como a Tribuna da Imprensa o é no Rio de Janeiro. Mas poucos de nós conhecíamos Omar Peres, uma figura nada agrádavel e enm um pouco simpática. Impossível um veículo de comunicação que tenha ele como dono dar certo. Uma pessoa cujo objetivo é atacar adversários, inimigos em um veículo que apriori seria para mostrar e revelar os fatos de maneira objetiva, atendendo aos interesses do leitor e não o interesse próprio. Enfim, pode-se comprar que a embalagem sozinha não faz milagre e que conteúdo é fundamental. Michael, parabéns pelo artigo.....estou à espera dos próximos capítulos....
Cristina Barroca
17/11/2008 - 08:07
Concordo com o comentário do Richard. Panorama surgiu com um intuito único de desbancar um jornal já cativo na cidade, que era o Tribuna. E assim por diante usou de todas as baixas estratégias para se ver no mercado concorrente. Panorama era a bem típica putinha de JF, apenas bem vestida, mas sem público fiel. Omar Peres quase um tirano de sua imprensa. Diversas vezes usando o espaço do editorial pra fazer ataques pessoais. Uma pessoa sem visão, obviamente, não poderia traçar outro destino. Me lembro muito bem do tipo de jornalismo que já vi nas páginas do Panorama, e em uma delas deretei eu mesma o falecimento de tal jornal. Pôr-do-sol: "Este seria o cenário dessa tarde se não fosse o tempo nublado" (algo do tipo). Pra mim esse defunto já está em estado de putrefação.
Richard Washington
14/11/2008 - 10:42
O sucesso e o fracasso do Panorama se deu muito antes de seu lançamento. Cá entre nós, um empreendimento de tamanho porte merecia, antes da sua execução, uma pesquisa de mercado, instrumento básico no desenvolvimento de qualquer empreendimento. Sabemos que o mesmo só foi realizado após a queda das vendas. Erro básico. Não acha. Muitos de seus colabodores, logo após demitidos, embarcaram em uma "aventura", que somente mais tarde descobrimos que o terreno não era tão sólido assim. Mas a experiência foi ótima, as amizades nem se fala. Um abraço a todos.