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Maria Helena Sleutjes

 
03/11/2009

Precisamos de tantas bugigangas?


O homem nasce nu e normalmente, não leva nada consigo quando morre,  mas num mundo que  se vende, todo mundo compra. Compra o que necessita e o que não  necessita. Comprar por quê?  Porque todo mundo compra. É uma onda. Uma onda gigantesca onde todos estão inseridos. Poderíamos nos perguntar: é um mundo ou um mercado? Com certeza, está mais para mercado do que para mundo.

- Dos acessórios da moda à beleza, você quer adquirir alguma coisa?

- De móveis ao conforto, do que realmente você necessita?

- De alimentos à fome, está havendo algum desperdício?

- De meios de locomoção aos automóveis de luxo, como fazer a opção?

- Se estou acostumado ao melhor, como vou escolher o “mais ou menos”?

- De serviços aos seres humanos, vendo-te umas boas horas do meu dia, quase todas, para ganhar dinheiro e sair por aí, comprando, comprando...

Eu compro, tu compras, ele compra, nós compramos, normalmente sem consciência.

Uma pesquisa recente, feita com jovens de 24 países e cinco continentes, apontou que o jovem brasileiro é um dos mais consumistas do mundo. Os shoppings tornaram-se programas diários nos grandes centros, sacolas cheias, celulares de última geração, empréstimos, dívidas no cartão de crédito.

Nas décadas de 60 e 70, quando o sentido da existência estava mais focado no futuro, a juventude queria liberdade, tinha vontade de ser independente dos pais, dedicava-se aos estudos  visando este futuro. Neste tempo os filhos faziam tudo para não decepcionarem os pais.

Nos últimos anos, quando vemos o sentido da existência humana deslocado para o presente, os jovens em sua grande maioria, dependem dos pais, são mais acomodados, menos preocupados com o amanhã, mas são vidrados em adquirir coisas... roupas novas, acessórios... Coisas que passam e passam cada vez mais rápido.

Outra pesquisa, feita pelo Shopping Ibirapuera, na zona sul de São Paulo, com jovens entre 15 e 20 anos, mostrou que a maioria consome com dinheiro dos pais. Neste tempo de agora, onde os pais é que fazem tudo para não decepcionarem os filhos, tudo indica que este consumo exagerado começa dentro da família, onde os pais trabalham infinitas horas por dia, e acabam tentando recompensar a ausência através de presentes.  Então, a criança se habitua a estas gratificações e quando se sente triste, vazia, insegura e ansiosa, busca sentir-se melhor através do consumo.

E esta onda do consumo exagerado atinge a todas as classes sociais. Querer cada vez mais, querer sempre coisas novas, acaba contaminando também os afetos que passam a ser cada vez mais descartáveis.

Se houvesse maior reflexão sobre esta questão, os próprios jovens já teriam concluído que o “maior barato” é VIDA SIMPLES E CONSCIÊNCIA ELEVADA, mas o problema é que consciência tem um preço e me parece que é caro demais ou não existe neste mercado.

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7 Comentários

MAGDA TRECE RIBEIRO

29/06/2010 - 12:56
Maria Helena, aprendi com uma amiga uma técnica fantástica: quando passo na rua e vejo algo bonito, pergunto SE REALMENTE PRECISO daquilo e 90% das vezes vejo que não preciso e vou embora sem comprar.Podem testar que dá certo. Quando a gente percebe que precisa do básico, parece que a vida fica mais leve, com menos cobrança. Grande beijo.

Ellen Augusta

26/03/2010 - 23:55
Adorei este texto! E gostaria de colocá-lo no meu blog. É bem isso mesmo. Hoje os adolescentes vivem do consumismo mais do que nunca. E todos nós somos consumistas, o difenrencial é saber consumir. A cada dia isso fica mais evidente. Muito bem escrito, valeu mesmo essa reflexão.

Claudia Freire Lima

11/11/2009 - 18:05
Querida Maria Helena, li seu artigo e fiquei pensando que vivemos a angústia da incompletude : quando nascemos vamos nos constituindo na fantasia de que somos o falo da mãe - falo enquanto representação psíquica de poder - o processo caminha e descobrimos que não somos o falo da mãe, mas podemos ter o falo! Do "ser" caminhamos para o "ter",e só muitos anos depois alguns seres humanos compreendem que o falo circula, mas a falta permanece no mesmo lugar. Que bom! É na falta que o sujeito se constituiu! Se estamos inseridos numa sociedade onde a falta é preenchida o tempo todo com coisas e mais coisas, onde o sujeito poderá aparecer? Na análise? É....Um bom lugar. Beijos querida. Cláudia;

Bruno Defilippo Horta

04/11/2009 - 13:31
Maria Helena, esta é uma questão bem delicada mesmo e inevitavelmente caímos na discussão dos valores que estamos transmitindo para as pessoas à nossa volta. O que se nota, infelizmente, é a perda e a distorção de valores como respeito, educação, altruísmo. Compra-se até mesmo as pessoas nos dias de hoje. As consequências: violência, exclusão, egoísmo,desamor. É hora de revermos nossos valores. Parabéns novamente por mais este texto.

Angela Cassino

04/11/2009 - 10:41
Olá Maria Helena Parabens pelo artigo, realmente voce chegou ao cerne da questão, entretanto nos dias atuais, com a mentalidade existente e os apelos da mídia acho este problema de difícil solução. Gostei muito da maneira como vc. abordou o tema. Beijos carinhosos

Marina

04/11/2009 - 08:01
Maria Helena, que artigo oportuno para este momento onde TER começou a substituir o SER. Em sua paletra no CES você focou muito bem a questão do SUJEITO e do OBJETO. O consumismo nada mais é que a transformação do ser humano em objeto. Parabéns! escreva mais!!

Ana Miranda

04/11/2009 - 07:55
Infelizmente, consciência está em falta no mercado. Infelizmente também, comprar é um hábito, mal hábito, mas hábito. Seja por compulsão, para preencher um vazio, para amenizar a solidão, para tentar acabar com a tristeza, para não nos sentrimos rejeitados e até mesmo para nos sentirmos amados, o que fazemos? Compramos. O problema é como pagamos... Nos atolamos em nossos cartões de crédito, (isso mesmo, no plural), trabalhamos dobrado e é claro, nos afastamos daquilo que de uma maneira muito mais gostosa e prazerosa resolveria melhor nossos problemas, nossa família. Beijos querida Maria Helena, você como sempre, nos brindando com belíssimos textos. Não me canso de dizer que tenho o maior prazer em ler o que você escreve!!!
 

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